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É preciso estar atento aos perigos da colocação de implantes em crianças

A odontopediatria exige uma abordagem integral na rotina de tratamento do paciente, incluindo-se nesse processo conhecimentos multidisciplinares, principalmente quando há necessidade de intervenções cirúrgicas. Nesses casos mais específicos, as alterações no comportamento das crianças são um dos grandes desafios do Cirurgião-Dentista. Além disso, o crescimento e o desenvolvimento de uma criança devem ser fatores de extrema relevância no planejamento de cirurgias odontopediátricas.

Isso por que com o crescimento físico de uma criança, há o desenvolvimento psicológico. Uma intervenção cirúrgica para colocação de um implante, por exemplo, além de ser contra-indicada pelo trauma que causará, não é recomendada por odontopediatras justamente por causa dos fatores de crescimento e desenvolvimento.

Os implantes, nessa faixa etária, devem ser feitos, se esse for realmente o caso, após uma minuciosa e criteriosa avaliação clínica.

"Do nascimento até por volta de 17 anos é um período de crescimento. O rosto e os tecidos ósseos não fogem a essa regra, explica o especialista, mestre e doutor em odontopediatria, Danilo Antônio Duarte. "Há uma dinâmica de crescimento muito intensa no período até os 12 anos, em que se tem alterações hormonais e modificações ósseas em termos de instabilidade dimensional de espaço. Isso faz que não se recomende os implantes em crianças – porque ainda ocorrerão muitas modificações."

Quando houver uma perda precoce de algum elemento dentário de uma criança, por qualquer motivo, os odontopediatras costumam indicar mantenedores de espaço até que as condições para a colocação de uma prótese fixa ou mesmo um implante sejam ideais. Segundo Danilo Duarte, as modificações pelas quais a criança passará nesse período contra-indicam a colocação de algum material fixo. "O ideal seria a partir dos 17 anos, quando já se trabalharia com mais tranqüilidade. Esse seria, sob o ponto de vista odontopediatríco, o período mais indicado para a colocação de implantes."

A professora Maria Salete Nahás Pires Corrêa, mestre e doutora em odontopediatria, afirma que "há controvérsias quanto à necessidade e vantagens de se reimplantar um dente decíduo avulsionado, e deve-se considerar os aspectos fisio-biológicos da manutenção do espaço no segmento anterior da arcada dentária da criança. Se o trauma ocorreu precocemente, antes da erupção dos caninos, pode haver diminuição do comprimento da arcada devido à mesialização dos dentes adjacentes ao espaço. Nesse caso, indica-se preferencialmente a colocação de um mantenedor de espaço para o não comprometimento da fala, estética e mastigação."

No caso de agenesias múltiplas na mandíbula que afetam segmentos inteiros, se houver osso suficiente os implantes podem ser planejados ainda antes do término da fase de crescimento, por não haver cres-
cimento do processo alveolar. Nesse caso, a dinâmica do desenvolvimento deve ser considerada e nenhuma prótese fixa deve ser implantada.

Eduardo Inada, professor assistente do curso de especialização em Implantodontia da Fundecto, também recomenda que se mantenha o espaço com aparelhos protéticos até cessar o crescimento da criança. "Rotineiramente não se faz implantes para a substituição de um único dente em crianças, coloca-se um mantenedor de espaços com o acompanhamento de um ortodontista, para que esse aparelho não trave o crescimento ósseo da criança."

Mesmo por que, segundo ele, depois de colocado o implante, a possibilidade de retirá-lo é muito pequena, devido à proximidade de estruturas nobres adjacentes (dentes). "A criança ficaria com um defeito ósseo muito maior", alerta. "O grande problema do crescimento ósseo é que, quando se instala um implante numa criança, esse implante funcionará como uma anquilose – ou seja, o implante fica parado no osso e o crescimento continua. Com isso, o implante fica muito distante da posição ideal, podendo causar alguns problemas de fonética e prejuízos estéticos, além dos problemas de biomecânica. E isso inviabiliza o tratamento."

Segundo a professora do curso de especialização em odontopediatria da Universidade Camilo Castelo Branco, Helenice Biancalana, a indicação de implantes em crianças só deve acontecer em casos muito específicos. "Depende muito do metabolismo de cada indivíduo. Normalmente, nos meninos, o crescimento final da face está por volta dos 18 anos. Nesse período, a indicação seria mais segura. Porém, há casos em que se faz implantes em crianças de 11 anos – nessa situação, é necessário um acompanhamento conforme o crescimento vai acontecendo.

Helenice lembra ainda que se o implante for colocado precocemente, é necessário o acompanhamento do odontopediatra, do implantodontista e do ortodontista. "A nossa visão de odontopediatra é mais conservadora. Temos uma visão de preservar os tecidos e as condições físicas das crianças, que passarão por tantos transtornos."

Em casos de displasia ectodérmica hereditária, a criança apresenta alterações na pele, unha, pêlos bastante evidentes. Muitas vezes as crianças com essa patologia não desenvolvem os dentes. Para Helenice, nesses casos, ou nos casos em que a criança passou por sessões de radioterapia, os implantes podem ser indicados. "É uma indicação boa, que vai ajudar na retenção da prótese dessas crianças, porque elas não terão nem dentes decíduos e nem os permanentes."

Tanto os odontopediatras como a maioria dos implantodontistas contra-indicam o implante antes do final do crescimento e desenvolvimento da criança. Em qualquer que seja o caso, deve-se, segundo eles, avaliar muito bem o tratamento e ponderar, acima de tudo, os riscos e traumas pelos quais a criança passará.

* Flávia Travaglini